Por Rodrigo Campos

Imagine-se o presidente eleito de um país tropical que pretende implementar um plano econômico, do qual foi convencido que irá gerar bons resultados futuros. Esse plano dependerá do confisco da poupança, entre outras medidas impopulares. Na semana da sua posse, você concede uma entrevista. Eis que surge a pergunta- “Sr. Presidente, a poupança do povo corre o risco de ser confiscada?” Responder “sim”, provocaria uma corrida aos bancos e um colapso no sistema financeiro. Responder “não”, coloca-o como mentiroso diante daqueles que depositaram confiança em você. Infelizmente, o final deste dilema conhecemos bem.
Tendemos a nos distanciar de dilemas assim. Porém, no nosso dia-a-dia, seja profissional (que abordarei) ou pessoal, não raramente temos que enfrentá-los.
“Sr. Diretor, atingiremos a meta?” “Sr. Parceiro, ganharemos juntos?” “Sr. Consultor, devo demitir essas pessoas?” “Sr. Gerente, vamos concluir este projeto no prazo e custo previsto?” “Sr. Colaborador, está realmente comprometido com a nossa empresa?” “Sr. Técnico, temos a qualidade que dizemos possuir aos nossos clientes?” “Sr. Candidato, é tão bom quanto diz o seu currículo?” “Sra. Empresa, pode aumentar o meu salário?” “Sr. Profissional, esse fracasso foi responsabilidade sua?”
Poderia citar outros exemplos, mas, creio que esses já são suficientes para a reflexão que proponho.
Segundo o cientista social Max Weber, há duas éticas: a da convicção e a da responsabilidade. A primeira não se importa com as conseqüências e os resultados de sua ação. A segunda toma em conta os defeitos do homem médio e condena qualquer ação que utilize meios moralmente perigosos, como a violência. A ética da convicção não suporta a irracionalidade ética do mundo. O mundo transforma-se, na primazia da convicção, no bem e no mal simplificados.
Se fizéssemos uma enquete entre os leitores deste texto o resultado provavelmente apontaria como vencedora a chamada ética de convicção. Porém, se comparássemos essa mesma enquete com os vários cases de mercado, certamente haveria maior aproximação com a chamada ética de responsabilidade.
Imagine-se agora como gerente de um projeto de desenvolvimento de um novo sistema em uma grande organização, que em tese já está na sua fase final de desenvolvimento, e no qual já se investiu milhares de reais. Você tem duas reuniões, uma com sua equipe técnica, e outra com o seu facilitador no cliente. Na primeira, recebe a notícia que o sistema desenvolvido é uma verdadeira “bomba”, mas, com alguns artifícios, o cliente não vai perceber. Na segunda, seu cliente faz esta pergunta – “Sr. Gerente, receio quanto a qualidade do sistema que contratamos. O que o senhor tem a me dizer a esse respeito? Posso tranqüilizar nossa diretoria que quer cancelar este contrato?” Responder “não”, vai gerar a quebra do contrato e a sua conseqüente demissão. Responder “sim”, cria a possibilidade de prolongar esta situação, sem na realidade alterá-la.
Não tenho a preocupação em saber o que diríamos em voz alta a respeito desse assunto, pois, o que proponho é uma reflexão mais íntima feita diante da imagem refletida no espelho.
Por qual motivo agimos em alguns momentos de maneira contrária à nossa convicção? Digo, “agimos” por supor que todos nós enfrentamos em algum momento das nossas vidas esses dilemas e, eventualmente, tomamos posições que poderíamos agora desejar mudar.
Agimos dessa maneira pois acreditamos que a pena social será alta. Miramos mais nos resultados imediatos, e não nos efeitos das nossas ações. Justificamos isso por razão dos vários riscos que acreditamos correr: “Ser demitido”. “Ser desacreditado”. “Não mandar nossos filhos à faculdade”. “Não ser contratado”. “Perder o contrato”. “Ter menos lucro”. “Admitir o fracasso”.
Cito o filósofo Gusdorf que, quando diz: “O homem não é o que é, mas é o que não é”, não está fazendo um jogo de palavras. Ele quer dizer que o homem não se define por um modelo que o antecede, por uma essência que o caracteriza, nem é apenas o que as circunstâncias fizeram dele. Ele se define pelo lançar-se no futuro, antecipando, por meio de um projeto, a sua ação consciente sobre o mundo.
Não há caminho feito, mas a fazer. Não há modelo de conduta, mas um processo contínuo de estabelecimento de valores. Nada mais se apresenta como absolutamente certo e inquestionável.
Essa condição de certa forma fragiliza o homem. Ao mesmo tempo, o que parece ser sua fragilidade, é justamente a característica humana mais perfeita e mais nobre: “a capacidade do homem produzir sua própria história”.
Pessoalmente, acredito que seja com a nossa biografia que devemos nos responsabilizar. A Ética (aqui escrita em maiúsculo) é uma questão de organização de valores no seu nível mais pessoal. A minha Ética não pode depender da sua. Seja para o bem ou não, agir com Ética é estar disposto a enfrentar as conseqüências (efeitos) das nossas ações.
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Notas:
Informações biográfias sobre Max Weber e sobre a sua obra podem ser obtidas por consulta a Wikipédia, clique aqui.
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Rodrigo Campos .:. Diretor Presidente do Allegro Business Group. Consultor atuante no mercado de tecnologia da informação e logística há mais de 15 anos.
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Uma questão de princípios.
“O homem pretende ser imortal e para isso defende princípios efêmeros. Um dia, inexoravelmente, descobrirá que para ser imortal deverá defender Princípios Absolutos. Nesse dia, morrerá para a carne, efêmera, e viverá para o Espírito, Eterno. Será Imortal.”
Celso Charuri
Prezado Rodrigo,
Parabéns por trazer a tona questões controversas. Parafraseando Raul Seixas: …porque dentro de nossas salas envidraçadas (que separam quintais) tudo isso não poderia ser citado.
Concordo com sua visão.
Dedico algum tempo do meu dia, a fim de pensar no homem, no mundo e nessa tal de pós modernidade na qual vivemos.
Creio, francamente, que homens que precisam gerir equipes, necessitam desse tônico.
Num tempo que responsabiliade é uma palavra querida para a boa visibilidade de instituições, é fundamental ser responsável com a ética.
O jogo é duro, com poeira e suor, certamente ardiloso, eu diria.
Mas creio, talvez de uma forma onirica, que a verdade deve ser o azimute.
É dificil? Sim! E como!
Impraticável sob certas condições, certamente!
Deve ser posta apenas como uma escultura na porta de nossos afazeres cotidianos? Nunca!
A verdade e a sua busca deve ser, pré requisito para todo ente que controla algo que afete a vida de terceiros.
Acho que a responsabilidade social, que treme bela nas campanhas publicitárias, mas ainda caminha cambaleante, pressionada pelos custos, começa a ser a semete de uma era, na qual a verdade seja o valor agregado ao projeto. Já há uma pequena ruptura, empresas que se entendem como cooperadoras e não fornecedoras já é um indicio, de que vamos ver em alguns anos, um movimento no qual o valor da verdade seja superior ao contábil.
Abraços.
Prezado Rodrigo,
A sua reflexão é interessante e merece respeito, mas não posso concordar inteiramente com ela. E neste aspecto não concordo nem um pouco com Max Weber.
Há alguns anos eu estava fazendo uma preleção sobre Ética (com É maiúsculo é claro) para um grupo de vendedores de minha empresa. Um dos vendedores, no final da palestra, levantou a mão e perguntou: “Seu Antonio, com quanta ética (aqui com é minusculo) devemos agir como vendedores”. Nem seria preciso dizer que dispensei o vendedor imediatamente.
Ética não se mede. Ou se tem ou não se tem. Ética não carece de qualificação ou de classificação. Ética existe ou não existe. É ou não é. Simples assim.
Ética é atemporal e aespacial. Não é possivel, por exemplo, começar uma negociação, atividade ou projeto sem Ética e querer incluí-la no meio ou no fim. Não é possível agir com Ética em alguns casos e e não em outros.
Ética também não carece de convicção. Não é algo subordinada à crenças de qualquer tipo. Esta muito acima disto.
E “responsabilidade”, talvez seja uma das palavras mais incompreendidas e mais mal aplicadas em nossos tempos. Muitas pessoas encaram responsabilidade como um fardo ou uma obrigação. Muito longe disto. Responsabilidade e junção maravilhosa de dois termos: “responsa” + “habilidade”. Ou seja, habilidade de responder. Habilidade de responder as situação que nós mesmos criamos.
Por exemplo, uma pessoa que age, quer seja com ou sem Ética, precisa ter ou assumir a “responsabilidade”, ou a habilidade de responder, pelas consequências de seu ato.
Age com Ética quem tem Visão. E os visionários agem a partir de uma postura e não de uma posição. Quem age a partir de uma postura, e por consequencia com Ética, inspira a si mesmo, seus pares, seus colaboradores e até os seus adversários para a grandeza.
Mesmo que a humanidade sucumba por falta de Ética, ainda assim a Ética continuará inabalável.
Tom Cau (Antonio Carlos Corrêa)
Rodrigo:
Sua reflexão nos ajuda a aliviar parte de nossa ações. Muito bem colocado Abian, que devemos sempre buscar “um movimento no qual o valor da verdade seja superior ao contábil”.
As pressões da sociedade acabam mesmo nos direcionando para a ética da responsabilidade e, com isto, não nos tornamos como corpo a essência do espírito iluminado. Porém, acredito sim, que há muitas pessoas, gestores, donas de casa, estudantes etc, propensos a carimbar a ética em sua mais extensa versão e assim compartilharmos um mundo melhor.
Como sugestão a todos os leitores de sua coluna, proponho que, como passo inicial, cada um de nós poderia ajudar a difundir ações éticas que protejam o meio-ambiente. Este, de fato, já não tem mais subterfúgios.
Forte abraço,
Prezado Rodrigo,
Parabéns por mais este texto que nos leva, de imediato, a refletir em nossas ações e relembrar situações que nos colocaram diante deste dilema.
Nossa sociedade, infelizmente, vive em busca apenas do resultado e muitos não medem esforços para alcançá-los.
Para muitos também, não há o dilema! Fazem o que julgam ser necessário para seguir em frente, sem, contudo, analisar os verdadeiros riscos de suas ações e acham que esta é a maneira certa de agir.
O mundo imediatista contribui com isso. O pensamento inicial é:”vamos resolver o problema atual, os outros, nos preocuapremos quando acontecerem!”.
Como bem disse, devemos ser respo´nsáveis por nossa biografia!!!
Grande abraço
Gustavo Ipolito
Gerente Geral de Vendas
TotalPrint Ltda
Prezado Tom Cau (Antonio Carlos Correa),
Já que o forum permite a naõ concordancia, quando Max Weber “classifica” no seu entender a Ética, ele na verdade está desconstruindo a ética daquele vendedor que vc dispensou, ou seja, vc concorda com ele na ação da Ética da responsabilidade, e quando vc diz Ética se tem ou não , Max afirma que tem , porem existem vertendes aceitas pela sociedade moderna sobre este tema.
Sem exceção, Ética é aplicada no contexto onde se aplica…afinal existem ética até entre criminosos…ou serão convenções de comportamento ?? Sei lá…
Rodrigo, obrigado por fazer pensar…..
Abraços a todos
Caros Senhores, boa tarde!
Ética: Convicção ou responsabilidade?
Podemos ter um futuro melhor se intuirmos em nós, no próximo e principalmente nos nossos jovens a consciência em todos seus aspectos. Isso nos traria para uma realidade: a presença do bem e do bom seria o DEFAULT. Os bons resultados seriam automáticos e o brilhar dos olhos de todos estarão sobre nós, seremos copiados pelo brilhar dos resultados.
Assim não haveria divergência.
Hoje tem se utilizado um verdadeiro jogo de cintura entre convicção e responsabilidade.
Atenciosamente,
Caros Colegas,
começo agradecendo a colaboração de todos. Sinceramente, é realmente gratificante tê-los como colaboradores neste Blog.
A questão “Convicção ou Responsabilidade”, como bem provaram as considerações aqui feitas, tende a gerar debates.
Reconheço que foi essa a minha intenção ao escrever este texto, mas, além de debates, pretendia gerar reflexões.
Creio que a Ética (escrita aqui em maiúsculo) é o resultado da organização de valores muito pessoais de um individuo. Por esse motivo, não me permito indicar aos outros um caminho certo ou designar um que não seja.
Seja para o bem, ou não, acredito que devemos estar dispostos a conviver com os efeitos e consequencias dos nossos atos.
Obrigado por suas considerações.
Forte abraço!
Rodrigo Campos
Diretor Presidente
Allegro Business Group
Bom dia.
Andei privando-me do prazer de ler os textos do Rodrigo por falta de acesso com qualidade à rede mundial. Mesmo os que li, não comentei. Houve uma vez em que depois de escrever, deletei tudo.
Como o próprio Rodrigo disse, algumas questões provocam debates. Não que estes sejam ruins. Só que tendem a se tornarem ácidos, corrosivos.
Analisando brevemente a citação do filósofo Gusdorf, referenciado no texto inicial, creio que ele tenha se referido às escolhas que o homem não fará. Uma pessoa não é ladra porque não escolheria roubar se tivesse que fazer essa escolha. Ou seja, para aquele filósofo, o que define o homem são as opções que ele não tomaria em qualquer circunstância.
Voltando a tema central, a ética, eu creio que ela seja apenas uma questão social. Por exemplo: se um fictício comandante militar da Patagônia questionasse uma posição oficial do governo de seu país com relação a uma reserva biológica para pingüins e leões marinhos, reserva essa que colocasse em perigo a integridade territorial daquele país, ele seria considerado um traidor e sem ética por seus superiores, ainda que fosse tido como um homem de moral por todos os que soubessem exatamente sobre o que ele estava falando.
Isso nos remete a uma outra questão: haveria diferença entre ética e moral? Creio que sim. A moral é um fator interno. A ética é um fator externo, imposto. Poderia dizer, de certo modo, que a moral é um fato da natureza do homem, enquanto que a ética é um fato social – geral, externo e coercitivo.
Vejamos um exemplo dessa coerção. O Sr. Antônio demitiu um vendedor por fazer uma pergunta. A falta de convicção do funcionário foi motivo suficiente para o Sr. Antônio decidir em parte o seu futuro. O mesmo não se aplicaria se ele fosse um pouco mulherengo, mas não trouxesse problemas para a porta da empresa. As convicções morais são menos valoradas que as “convicções éticas”.
Por fim, aqui vai minha opinião: creio que nossa ética tem que estar condicionada à nossa moral. Se agirmos conforme nossos próprios princípios, dormiremos tranqüilos, mesmo que tenhamos tomado uma decisão dura. Se, por outro lado, violentarmos nossas convicções, sentir-nos-emos como “prostitutas” a serviço de nossos trabalhos e empresas.
Aloysio