Uma questão de lealdade para com…

Por Rodrigo Campos

De acordo com as definições mais comuns lealdade é – “propósito ou devoção de fidelidade a alguma pessoa ou causa”. Constitui algo que entregamos a terceiros por escolha e convicção. Em tese, ao leal importa a crença, a admiração e o apoio incondicional a outrem. O leal se caracteriza por ser um observador atento que participa da construção da história, embora não seja dela protagonista.

Uma referência rica sobre o mesmo tema é o clássico da literatura mundial Don Quixote de la Mancha, do espanhol Miguel de Cervantes. Dom Quixote, após ler vários livros sobre cavalaria errante, enlouquecido, veste-se com uma armadura velha e convida Sancho Pança para ser seu escudeiro, que aceita segui-lo pela promessa de governar uma ilha. Sancho, um ingênuo lavrador, atua como personagem de contraste. Enquanto Quixote é fantasia, Sancho é realidade.

Cavaleiro e escudeiro saem pelo mundo em busca de consertar aquilo que está torto. Pensando salvar fracos, oprimidos e donzelas em perigo, Dom Quixote faz confusões com rebanho de ovelhas, declarações à amada Dulcinéia e ao encontrar moinhos de vento, confunde-os com gigantes com quem trava bravas lutas.

No mundo corporativo, o Quixotismo (termo que busca definir o comportamento daqueles que sobrepõe a fantasia à realidade) se faz presente. Existem líderes Dons Quixote, assim como Sanchos Pança prontos a segui-los.

Há no Quixotismo identificação com o mundo real já que tendemos a estar aquém da imagem que fazemos de nós mesmos e dos ideais que aspiramos. Por vezes somos Sancho por ingenuidade, cobiça ou qualquer outra razão. Devemos lembrar do fato que Sancho dispôs-se a entrar naquela aventura e no delírio de Quixote em troca de nada, ou melhor, em troca de preferir o sonho irreal à banalidade do real.

Somos avaliados no mundo corporativo por nossos resultados. Ao cavalgar com Dom Quixote, certamente, irão sobrar histórias para contar, mas faltarão resultados para apresentar. Este é o ponto em que o choque entre fantasia e realidade derruba cavaleiro e seu(s) escudeiro(s) da montaria. Não devemos, no entanto, confundir fantasia (delírios) com criatividade, pois, a criatividade gera resultados reais.

Dedico essa reflexão aos escudeiros corporativos com a intenção de alertá-los. Mas, se esses optarem por deixar a aventura ou entregar sua lealdade a outro cavaleiro, é preciso cuidado. O cavaleiro não duvidará dos seus próprios delírios, mas sim da sua lealdade e vai tentar puni-lo. Vale lembrar quem carrega consigo a espada.

Vale! (expressão latina para adeus. Era a saudação usada por Cervantes)

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Notas:

Informações biográfias sobre Miguel de Cervantes e a sua obra podem ser obtidas por consulta a Wikipédia, no link: | Miguel de Cervantes |.
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Rodrigo Campos .:. Diretor Presidente do Allegro Business Group. Consultor atuante no mercado de tecnologia da informação e logística há mais de 15 anos.

Plaxo

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5 Respostas

  1. Grande Rodrigo. Sábias as suas palavras. Mais uma vez um texto que nos remete ao mundo da reflexão. Parabéns por mais essa dádiva.

  2. Amigo Rodrigo,

    Creio que você se recorda de uma nossa conversa em que expus minha idéia sobre fidelidade. Mesmo assim, repito que a fidelidade serve ao que a recebe muito mais do que a dá.

    É verdade que quem usa a espada é o cavaleiro, o gerente, o presidente, o chefe… Essas pessoas podem se servir da fidelidade e esquecer de retribuí-la quando tal retribuição se fizer necessária.

    Sei que seu texto versa sobre outra palavra: lealdade. Mas creio que o que se aplica à fidelidade também se aplica à lealdade.

    Vejamos um exemplo bastante básico. Um grupo de trabalhadores colhe café em uma fazenda. Com seu trabalho, eles geram lucro. Com esse lucro, o dono da fazenda compra novos equipamentos, entre os quais, uma colheitadeira automática.

    Notemos o resultado prático da dedicação dos trabalhadores ao fazendeiro!

    Não digo que um trabalhador não deva ser leal ao seu empregador. O que eu digo é que esse trabalhador deve ser leal aos seus próprios ideais. Deve ser pago pelo trabalho realizado, e reconhecido pelo lucro produzido. Mas não deve jamais esquecer que ele é apenas mais um recurso à disposição da empresa. Um recurso que pode ser substituído. Mas também um recurso que possui valor. Se surgir uma oportunidade de ser melhor pago, ele deve tomá-la. Isso não implica deslealdade. Desleal seria levar consigo os segredos da empresa e usá-los de forma inescrupulosa. Não é isso que estou apregoando. O que apregôo é que os escudeiros devem alugar e não vender sua lealdade.

    Aloysio

  3. Belíssimo texto, Rodrigo.

    Não só belo como também oportuno.

    Temos logo a frente, em outubro, uma contenda pelo poder. Nela encontraremos pessoas que não foram leais ao poder que lhes foi dado pelo povo, através do voto. Nela também encontraremos pessoas que, a pesar de se sentirem traídas, nos ideais compartilhados por seus candidatos, continuarão a votar neles, por fidelidade aos ideais.

    Temos então uma dualidade aqueles que se aproveitam dos emblemas e atuam desleamente por egoísmo e aqueles que apesar de verem os erros, são incapazes de mudar, por fidelidade a uma imagem fantasiosa

  4. Prezado Primo,

    Tudo bem contigo? eu já tinha conhecimento de seu artigo e achei muito interessante e oportuno a discussão sobre o referido tema, falar de lealdade nos dias utuais é algo muito difícil pois infelizmente no mundo em que vivemos, digo no campo social e profissional o que mais presenciamos é a falta de lealdade diante das pessoas, pessoas essas que procuram mais em sobresair aquela que está ao seu lado, do que se aliar a ela na busca de um bem comum, ou seja algo que possa vir a beneficar ambas as partes.

    Precisamos atualmente de pessoas leais, pois diante disso teremos um mundo mais leal……

    Um abraço.

    do primo Edmar.

  5. E ai……… a tua cabeça esvaziou perante a minha ausencia planejada. Hoje é dia 20 de setembro de 2008 e Bin Laden já derrubou novamente Torres em 11 e as Bolsas americanas,. Mal Bin Laden e bom Dom Quixote e Cervantes são: passado presente, mas não são suficientes. Escreva…….Vale! não tem representação no mundo real. Somente tem siginificado na sociedade pós figurativa.

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