Projeto tem começo, meio, fim …. e conseqüências

Por Rodrigo Campos 

 

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Já há algum tempo defendo que os conceitos clássicos são ainda insuficientes para definir o sucesso ou limitar as mudanças obtidas por projetos. Não tenho nenhuma dúvida que essas definições extrapolam simplesmente o cumprimento de escopo, custo, prazo e qualidade.

Reconheço a mais-valia e a evolução das metodologias de gerenciamento de projetos baseadas naquilo que defino como enfoque clássico visto que buscam estabelecer um padrão médio referenciado em best practices.

Entretanto, identifico que o maior equivoco dessa abordagem seja o de focar resultado e não efeito (conseqüência). É assim que explico parte do insucesso mesmo daqueles projetos que obtêm o sucesso técnico.

Entendo que o sucesso real de um projeto não pode ser garantido apenas pelo gerenciamento da sua integração, escopo, tempo, custos, qualidade, recursos humanos, comunicações, riscos e aquisições ou pelo acompanhamento de cronogramas e curva S ou elaboração de relatórios.

Na minha visão: “Projeto tem começo, meio, fim …. e conseqüências”.

É esta a preocupação que busco transmitir aos gerentes de projetos recém “enlatados” pelas certificações disponíveis no mercado, nas quais também reconheço valor. É esta consciência que espero encontrar em profissionais ditos experientes. É isto que me proponho a discutir aqui.

Quando o resultado se associa em sinergia ao efeito temos a noção que: “Resultado real é aquilo que efetivamente permanece”. Dessa perspectiva, proponho que o planejamento e execução de um projeto deva ser orientado aos efeitos pretendidos e não ao marco da mudança (resultado).

Sendo assim, o planejamento deve considerar múltiplos cenários e suas virtudes e restrições de modo que exista a maior quantidade possível de elementos para construção do efeito desejado. A execução deve ainda considerar a suplantação de cenários não previstos ou não desejados.

Aquilo que está no cerne desta abordagem é a exploração do conceito do controle consciente desses cenários (previstos ou não) para criar as condições necessárias de modo que os atores dos vários processos na organização, com seus diferentes interesses, possam operar, interagir e cooperar em benefício dos efeitos pretendidos pelo projeto.

Contudo, desde já afirmo que não é possível prever todos os cenários. Ninguém sabe com total certeza o que irá acontecer no futuro. Porém, a imprevisibilidade não significa que não devemos preocupar com ele e meramente apostar na sorte ou em previsões otimistas. É preciso estar preparado para navegar num mar turbulento de crises e incertezas.

Nesse contexto o presente é também rico em informações e referencias, pois, a ação que se dá no presente é o que dá forma ao futuro. O pensamento de futuro envolve o que se deve fazer agora, que passos devem ser dados para tornar possível o futuro desejado. 

O que estou apresentando não se traduz como uma metodologia, mas sim um modo de pensar. Neste sentido, não conflita e é complementar às metodologias de gerenciamento de projetos das quais tenho conhecimento.

É este domínio sobre os efeitos que permite ver os conceitos clássicos como um meio de documentar e obter o controle operacional do projeto, ao invés de ser o modelo estratégico de concebê-lo e executá-lo.

Busco respaldo na Análise Pragmática – “principio baseado no pragmatismo, doutrina fundamentada no pensamento do filosofo Charles Sanders Peirce, cujo modo de ver privilegia os resultados das ações como fonte de significado e estabelece a comunicação intersubjetiva como meio preferencial de controle da objetividade de qualquer percepção”.

A Análise Pragmática deriva ainda das idéias do sociólogo Erving Goffman que diz: “Qualquer evento pode ser descrito em termos de um foco… Diferentes interesses vão gerar diferentes relevâncias motivacionais.” Princípios da pragmática também têm sido aplicados com sucesso na definição estratégica de operações militares baseadas em efeitos.

Procurei também alinhar os conceitos da pragmática ao pensamento prospectivo que determina que o homem é o agente consciente das mudanças ao seu redor.

Creio que compreendi um pouco mais a relação sutil que se estabelece entre ação e efeito, causa e conseqüência. Isso mudou a forma de organização e execução dos meus projetos profissionais e pessoais.

Aos meus colaboradores, fornecedores e parceiros tenho solicitado que não mais me prometam resultados, mas que estruturem suas ações para que os efeitos reconhecidos como desejados possam permanecer. É também este o compromisso que tenho assumidos com eles e junto aos meus clientes.

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Rodrigo Campos .:. Diretor Presidente do Allegro Business Group. Consultor atuante no mercado de tecnologia da informação e logística há mais de 15 anos.

Plaxo

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16 Respostas

  1. Concordo, se for seguir o PMBOK 100% você conseguirá arranjar mais problemas que soluções para seus projetos. O PMBOK é um guia de melhores praticas e tem que ser visto assim. Ele não pode ser visto como um mandamento, uma bíblia ou uma regra. O que eu recomendo é ter “bom senso” para saber, o que é uma pratica viável ou não, para ser utilizada em um determinado projeto. É esse “bom senso” que diferencia um bom profissional e o homem das maquinas.

    • Caro Victor Campos,

      seja usando o PMBOK ou qualquer outra metodologia o bom senso deve sempre predominar. Vejo que também concordamos quanto a humanização do gerenciamento de projetos e não a sua robotização. Porém, o bom senso deve também estar apoioado em conceitos e, neste caso, vejo a pragmática como um bom instrumento.

      Sinceramente, agradeço a sua colaboração.

      Forte abraço!

      Rodrigo Campos
      Diretor Presidente

      Allegro Business Group

  2. Rodrigo, sua visão é, simplesmente. deliciosa!

    Trabalhar vislumbrando consequências, ou ainda, buscando vê-las e tratá-las é alguma coisa que me morde a orelha há tempos – até mesmo pelas experiências por que passei -, mas, ao menos até o momento, nunca vi como traduzir esse incômodo, e você fez isso muito bem. E fez porque não perdeu-se tentando configurar o embrião de uma metodologia (como você bem diz no texto), antes buscou incutir essa mesma “mordida” nas mentes de quem tiver a sorte de ler seu texto!
    Por isso mesmo, meus parabéns! Um raciocínio excelente que, aliás, aviso que vou indicar como “leitura mais que obrigatória” para alguns amigos de uma lista de profissionais de TI que faço parte. Acho que vou conseguir levantar uma boa discussão por lá, ao menos até que a excelência da necessidade do que você propõem fique mais do que clara.

    • Caro José Vasconcellos,

      em primeiro lugar, agradeço suas colocações.

      Venho pesquisando esse tema há alguns anos e, mais que isso, procuro vivenciar os conceitos que apresentei no texto. Sempre achei as metodologias tradicionais limitadas, sobretudo neste ponto, e admito que tentei praticá-las com muito critério. Encontrei na orientação a efeitos a explicação para um hiato sutil, mas extremamente poderoso. Agora, tendo compartilhar e aprimorar essa experiência e envolver mais e mais pessoas nessa busca.
      Vejo seu interesse e entendimento sobre o tema como um fator de motivação.

      Sinceramente agradeço.

      Forte abraço!

      Rodrigo Campos
      Diretor Presidente

      Allegro Business Group

  3. Mas, Victor, a idéia do texto não seria: Além de usar o bom senso (muito bem dito), medir as consequências dos demais atos?
    Até indo um pouco contra a posição do Rodrigo, eu veria aí um POC (P_rojeto O_rientado as C_onsequências) – just kiding! -, que, ao menos no que entendo, sem dúvidas, melhoraria bastante as relações pós-projetos que costumamos ver por aí ;)

  4. Colegas, mais uma vez, Rodrigo nos presenteia com uma excelente leitura.
    Acredito que riscos são e serão os maiores desafios de nossas vidas a todo tempo. Saber gerencia-los é a arte que nos cabe aprender para nos frustar cada vez menos.
    Quanto a respostas que permaneçam, apesar de concordar plenamente, penso que nossa cultura ainda não está proporcionando isso. Estamos imersos num mundo de resultados imediatos, ou caso contrário, o projeto não é viável.
    É interessante, pois ainda há pouco falava com minha mãe sobre algo parecido. A importância de nossos atos como espelho sobre nossos filhos, etc. Um projeto no longo prazo, mas que, irá criar nossos futuros líderes.
    Abraços a todos.;

    • Caro Cleber Luciano,

      seja sempre muito bem vindo a este Blog!

      Sou eu quem deve se sentir presenteado por ter a possibilidade de participar de uma troca tão rica de experiências. Concordo que o modelo que proponho não seja simples, mas, acredito firmemente na sua eficácia. Também acredito que ele não seja o modelo mais natural, pois, tendemos a criar expectativas no curto prazo. Afinal, creio que seremos definidos por nossa história, ou seja, aquilo que de fato permanece.

      Sinceramente, agradeço a sua colaboração.

      Forte abraço!

      Rodrigo Campos
      Diretor Presidente
      Allegro Business Group

  5. Concordo com o que foi dito no texto e também nos comentários, mais creio que não podemos nos abster de focar no resultado ( que ao meu ver engloba também as consequencias futuras). Realmente precisamos de uma boa dose de estratégia e bom senso neste assunto, conforme dito acima pelos colegas, mas não podemos nos esquecer do fato que “resultados imediatos” são apenas parte de um “resultado” final e podem (ao meu ver até devem ser utilizados em avaliações) para indicar uma tendência de sucesso. Para finalizar gostaria apenas de me juntar aos que levantam a bandeira da utilização de metodologias com bom senso

  6. Gostaria de colocar em um ponto que você disse sobre “conceitos clássicos são ainda insuficientes para definir o sucesso ou limitar as mudanças obtidas por projetos.”
    Primeiramente conceito nenhum vai garantir o sucesso de um projeto e sim a harmonia entre pessoas, processos e informação. Creio que isso vai depender muito de como uma metodologia for implantada, depende também da maturiade e cultura da empresa, ou seja, o que devemos fazer seria reunir de várias metodologias clássicas (RUP, PMI, ITIL, etc) quais pontos seriam relevantes para a empresa e trabalhar em cima delas. Acredito que utilizá-las realmente não vai nos garantir um projeto de sucesso, mas pensando por um outro lado, sem elas ficaria muito mais difícil gerenciar. Estas práticas sendo bem aplicadas, o sucesso de um projeto terá um índice maior.
    Consequências sempre vamos ter em qualquer alteração na cultura da empresa, agora nos resta saber: consequências boas ou ruins? O que devemos fazer é colocar em uma balança e verificar que lado ganha. Uma dica seria utilizar o PDCA (ciclo de Deming) e traçar indicadores e tentar alcançá-los.
    Inserir uma metodologia em uma empresa é um processo que pode ser doloroso porém útil.
    Nos cabe identificar as consequências negativas e tentar reverter a situação. Cabe ressaltar que ao implementar alguma metodologia muitas vezes os resultados não serão imediatos e nem sempre com sucesso, mas isso não é motivo para desisir. A partir do momento que a empresa começa a ganhar maturidade, o fluxo começa a andar naturalmente e o sucesso será cada vez mais frequente nos projetos. Através de lessons learned que identificamos nos projetos, é possível estar sempre melhorarando.

  7. Caro Rodrigo Campo,

    Parabéns pelo ótimo post.

    Só quero fazer um questionamento…

    O que faz os GP pensar que, aplicar com maestria as práticas do PMBOK, é suficiente para o sucesso do projeto?

    Acho que uma das respostas possíveis é, a falta de visão empresarial e de negócios, pois como você mesmo falou, um projeto tem que causar um efeito(conseqüência), esse efeito deve ser positivo nos negócios dos cliente .
    Projetos nascem para atender as demandas dos negócios dos clientes, e se um projeto for concluído com sucesso técnico, mas não deu o retorno esperado ao negócio do cliente, podemos dizer que o projeto não foi concluído com um sucesso.

    Espero ter contribuído.

    Forte Abraço a todos.

    • Caro Átila Abreu,

      Creio que existe uma falha na formação dos Gerentes de Projetos. Também acho que a experiência tem tido uma importância menor. Porém, do outro lado, temos Projetos mal especificados sob demandas mal planejadas. Sabemos bem o que um encontro do GP mal preparado com Projetos mal estruturados vai gerar.

      Sinceramente, agradeço a sua colaboração.

      Forte abraço!

      Rodrigo Campos
      Diretor Presidente
      Allegro Business Group

  8. Rodrigo.
    Parabéns pela explanação acertada. Todo resultado tem consequências. Entendê-las e traduzi-las no continum das operações parece o óbvio. Mas fazer o óbvio …
    Mensurar o resultado não é questionar o método, mas sim o objetivo do projeto. Independe da metodologia per si. Existem várias que se não concorrem se suportam. Buscar traduzir o resultado vai além da metodologia, tem a ver com pessoas, com o relacionamento, com os recursos, etc. Creio que todos os que comentaram seu artigo indicam seu acerto.

    Parabéns novamente.

    Gustavo Galleazzo

    • Caro Gustavo Galleazzo,

      O óbvio realmente é desafiador, pois, ele não convive com excessos nem a omissão. Costumo dizer aos meus colaboradores que não devemos pecar naquilo que é óbvio para termos reservas de energia para suplantar aquilo que não é. Mas, o que é óbvio? Para mim, é aquilo que se comprova como verdadeiro com um grau de simplicidade surpreendente. Agora, treinar sua percepção para isso passa por descartar a complexidade vaidosa do pensamento. Enfim, concordo absolutamente com as suas colocações.

      Sinceramente, agradeço as suas considerações.

      Forte abraço!

      Rodrigo Campos
      Diretor Presidente

      Allegro Business Group

  9. Rodrigo.
    Parabéns. Realmente todo resultado tem consequências e nem sempre o obvio é obvio.
    Mas a forma que colocou, nos põe em posição de questionar nossa maneira de tratar o tema.
    Obrigada por compartilhar suas idéias.

    Regiani Andrade

    • Cara Regiani Andrade,

      sou eu quem deve agradecer a sua disponibilidade em ler e comentar este texto. A publicação desses textos têm sido uma experiência rica onde consigo debater idéias sem a pretenção de ser dono de qualquer verdade.

      Forte abraço!

      Rodrigo Campos
      Diretor Presidente
      Allegro Business Group

  10. Caro Rodrigo
    Mais uma vez você nos brinda com este interessante e instigante texto. Creio que Gerente de Projeto é uma função ainda meio sem padrão. A autoridade e responsabilidade deste profissional é diferente em cada empresa. Muitas vezes o GP pega um projeto já definido para implantar ou implementar. Outras vezes participa desde a fase inicial, cabendo-lhe responsabilidade sobre a conceituação do projeto. Existem muitos modelos para gerenciamento do projeto, desde o PMBoK, que não é uma metodologia e sim um guia de melhores práticas até o PRINCE2, esta sim, uma metodologia completa.
    Acho extremamente importante sua colocação sobre a consequencia do projeto, mas ele só trará os resultados esperados se for implantado no tempo e no custo previstos e com a qualidade planejada.
    Um grande abraço…Marcelo

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